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O dinheiro

Quanto custa, quem paga, o que o BEI já financia, e porque a habitação acessível não é acessível.

10. Escala, custo e financiamento

Os números que se seguem são ordens de grandeza para orientar a decisão, não orçamentos. Devem ser afinados por quem tem os dados.

ParâmetroOrdem de grandeza
Fracções na primeira vaga, em doze meses100 000 (26 por freguesia; tecto do plano em 200 000, ritmo já sustentado noutros países)
Pessoas alojadas150 000 a 250 000
Aldeias400 a 800
Solo necessário (30 a 40 fracções por hectare, incluindo comum)3 000 a 4 000 hectares
Custo por fracção, solo já infra-estruturado (urbanizações falhadas, parques desactivados)2 000 a 4 000 euros
Custo por fracção, terreno em bruto, redes enterradas, tratamento local, núcleo pré-fabricado, sem ruas4 000 a 10 000 euros
Investimento total, mistura realista de solos500 a 800 milhões de euros
Custo da célula (suportado pela pessoa)10 000 a 40 000 euros
Custo comparado, fogo convencional subsidiado150 000 a 250 000 euros

Por outras palavras: o custo público por pessoa alojada é entre um décimo e um trigésimo do da construção convencional, é reversível, e liberta a construção permanente para fazer o que só ela pode fazer. Não é a solução barata. É a solução rápida, e a rapidez é hoje o que falta. Um ano é o prazo de uma emergência; se o Estado consegue montar hospitais de campanha em semanas, consegue montar aldeias em meses.

O dinheiro europeu já existe

Em Dezembro de 2025 a Comissão Europeia apresentou o primeiro plano europeu para a habitação acessível, e o Grupo BEI anunciou que duplicava para 6 mil milhões de euros o financiamento à habitação acessível em 2026, com foco em inovação, reabilitação e nova construção. Estão previstos mais 10 mil milhões em 2026 e 2027 através do InvestEU e pelo menos 1,5 mil milhões de reprogramação dos fundos de coesão, e os bancos de fomento nacionais e regionais comprometeram-se a investir 375 mil milhões até 2029 em habitação social, acessível e sustentável. No terceiro trimestre de 2026 arranca a plataforma pan-europeia de investimento que junta o BEI, o Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa, o BERD e os bancos de fomento nacionais, com um portal de balcão único para aconselhamento e financiamento.

Portugal já está dentro. Em Setembro de 2025 o Governo e o BEI aprovaram um empréstimo-quadro de 1 340 milhões de euros para cerca de 12 mil habitações públicas a renda acessível, executado pelo IHRU, com prazo até 2030, taxas mais baixas e carências mais longas, e uma primeira tranche de 450 milhões já assinada. O Banco Português de Fomento criou em 2025 uma direcção de habitação e anunciou para 2026 três linhas: uma para as câmaras municipais executarem as suas estratégias locais de habitação, uma para parcerias público-privadas e uma para cooperativas de habitação, precisamente para resolver a falta de liquidez que historicamente as atrasava. O BPF fala em 1 500 milhões disponíveis e em garantias públicas aos 308 municípios.

Por outras palavras: o canal está construído, do BEI ao BPF, do BPF às câmaras e às cooperativas. O que falta é um projecto que caiba nele e que custe um décimo do que ele está habituado a financiar. O Gabinete Nacional agrega as candidaturas das 300 câmaras num único empréstimo-quadro, porque o BEI não financia aldeias uma a uma, e as cooperativas de interesse público entram pela linha das cooperativas do BPF. Um plano de 500 a 800 milhões para 100 mil fracções é, à escala destes instrumentos, pequeno e rápido, e é exactamente o tipo de inovação na construção, eficiência energética e sustentabilidade que o BEI diz querer financiar. O Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa, que financia habitação social e instituições de solidariedade, é o parceiro natural para a participação das IPSS.

Um obstáculo a resolver desde o início: o plano europeu introduz uma cláusula de duração mínima de 20 anos para os projectos de habitação acessível que financia. As aldeias têm um horizonte de 15 anos. A resposta é simples e deve estar escrita na candidatura: o solo fica afecto a habitação acessível por 30 anos, pelo direito de superfície, e o que é reversível é a forma, não a afectação. A aldeia pode desmontar-se; o compromisso do terreno com a habitação a custo, não.

A habitação acessível não é acessível

Convém dizer o que custa a habitação a custos controlados que as câmaras e o Estado vendem hoje. Em Faro, os fogos em regime de venda a custos controlados foram a concurso entre 104 750 euros para um T1 e 216 250 para um T3; em Aveiro, entre 101 500 e 198 500; em Olhão, 135 mil um T1, 155 mil um T2, 185 mil um T3; na Madeira, o Governo Regional apontou 160 mil euros para um T2 a custos controlados. Ou seja, 100 a 220 mil euros, e mais nos concelhos de pressão. Acima disso, o Governo criou em 2026 a renda moderada até 2 300 euros por mês e o preço moderado de venda até cerca de 660 mil euros, com IVA a 6% para quem construir nessa faixa, valores calculados para um agregado com rendimentos mensais na ordem dos 5 750 euros. Chamar moderado a isto é um insulto a quem ganha mil.

Casa a custos controladosPrestação a 30 anos, Euribor 6M + 0,7% (3,5%)Total pago ao bancoRendimento líquido exigido (esforço 35%)
T1, 105 mil euros470 euros170 mil euros1 350 euros
T2, 160 mil euros720 euros260 mil euros2 050 euros
T3, 200 mil euros900 euros325 mil euros2 550 euros
Renda acessível, T2 numa área metropolitana800 a 1 000 eurossem fim2 300 a 2 900 euros

A tabela responde à pergunta. Quem ganha o salário mínimo, 819 euros líquidos, pode, pelas regras da taxa de esforço, pagar uma prestação de 290 euros, o que lhe permite pedir cerca de 65 mil euros. Não há casa a custos controlados a esse preço em lado nenhum. Quem tem uma pensão de 500 euros pode pagar 175, e nenhum banco lhe empresta a 30 anos. Os cerca de três milhões de trabalhadores que ganham menos de 1 200 euros líquidos não chegam sequer ao T1 de Faro, e os 1,6 milhões de pensionistas abaixo de 870 euros não chegam a nada. A habitação acessível, tal como está desenhada, serve a classe média que já tinha casa ou quase, e é isso que o Estado está a financiar com o dinheiro do BEI. Não é errado; é insuficiente, e é cego para dois terços do país.

Por comparação: uma célula de 10 mil euros a dez anos custa 85 a 100 euros por mês, conforme o juro; a renda da fracção, a 10 a 15% do rendimento, são 82 a 123 euros ao salário mínimo e 50 a 75 euros a uma pensão de 500. Ao todo, 170 a 225 euros para quem ganha o mínimo, 135 a 175 para o reformado, por uma casa própria. A um e a outro sobra dinheiro no fim do mês.

Microcrédito para a célula

O Estado avaliza hoje, através da garantia pública aos jovens, até 15% do valor de casas até 450 mil euros, para que o banco empreste os 100%. A dotação foi fixada em 1 200 milhões de euros e reforçada para 1 550 milhões; até Novembro de 2025 tinham sido usados 626 milhões em cerca de 23 mil contratos, num total de crédito de 4 544 milhões. Convém fazer a conta do que isso significa para o jovem. Uma casa de 350 mil euros, financiada a 100% a 30 anos, à taxa praticada hoje, Euribor a seis meses de 2,808% em Setembro de 2026 mais um spread de 0,7%, ou seja 3,5%, dá uma prestação de cerca de 1 570 euros por mês; se a Euribor subir meio ponto, 1 670. Com seguros de vida e multirriscos, IMI e condomínio, a casa custa-lhe 1 700 a 1 900 euros por mês durante trinta anos. No fim, pagou ao banco entre 565 e 600 mil euros, dos quais 215 a 250 mil são juros, mais uns 40 mil de seguros. A casa de 350 mil custou-lhe 650 mil. Para o banco aceitar, a taxa de esforço exige um rendimento líquido do agregado de 4 500 a 5 000 euros por mês, ou seja, duas pessoas a ganhar mais do dobro da mediana. E se algo correr mal, o Estado paga ao banco os 15% que garantiu e vai depois cobrá-los ao jovem, porque a fiança tem direito de regresso.

Não foi uma boa medida. Foi o endividamento brutal de uma geração, apresentado como apoio, e serviu sobretudo para sustentar os preços de quem vende. Só chegou a quem já podia pagar, e prendeu-o a trinta anos de prestações numa casa que vale o que o mercado disser quando precisar de a vender. A quem não tem casa nenhuma não chegou, porque não podia chegar.

Propõe-se um instrumento simétrico e mais barato: uma linha nacional de microcrédito para a célula, com garantia do Estado a 100%, até 20 mil euros por agregado, a juro bonificado, a dez anos, para a compra de roulotte, autocaravana ou célula certificada, ou para os materiais de uma casa da TinyHouse Aberta construída pelo próprio. A prestação de uma célula de 10 mil euros a dez anos são 85 a 100 euros por mês, conforme o juro do microcrédito, que com garantia pública deve ficar abaixo de 3,5%. Para quem ganha o salário mínimo, 819 euros líquidos, a renda da fracção, 10 a 15% do rendimento, são 82 a 123 euros. Ou seja, 170 a 225 euros por mês por uma casa própria e um lugar servido, o que nenhum quarto arrendado oferece.

A linha corre pelos bancos, pelas caixas de crédito agrícola e pela rede de microcrédito que já existe, sem criar uma instituição nova. A célula certificada fica registada como bem móvel e é a própria garantia real; a garantia pública cobre o resto. A exposição máxima, se todos os 100 mil fracções recorressem ao tecto, seria de 2 mil milhões; a exposição realista, com uma média de 10 mil euros e uma taxa de incumprimento de 10%, custa ao Estado 100 milhões em dez anos. É um décimo da garantia que já dá aos jovens para casas de 450 mil.

Quem paga a fracção são as câmaras municipais, com apoio do Estado e dos fundos europeus. A esta escala de custo, 3 a 8 mil euros por fracção, uma câmara média cria 200 fracções por um a dois milhões de euros, menos do que um rotunda ou um pavilhão, e recupera-o em rendas de fracção em dez a quinze anos. O Estado entra com o solo que é seu, com a garantia do microcrédito, com os fundos de coesão e do BEI para os concelhos com menos capacidade, e com o Gabinete Nacional descrito na secção 11. As células podem ser financiadas por crédito bonificado, com garantia do Estado, e por programas de aquisição de roulottes e autocaravanas usadas, de que a Europa está cheia.

Isto é uma proposta. Só acontece se muita gente a pedir.

Nenhum governo, câmara ou partido a adoptou ainda. O que a faz avançar são números: cartas, grupos, assinaturas. Três coisas que pode fazer hoje.

Escrever à sua câmara

Uma carta pronta, com os números do seu concelho, que envia em seu nome.

Escolher o concelho

Entrar no grupo do seu concelho

Ou criá-lo, se ainda não existe. O kit diz o que fazer a seguir.

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