O problema
Quem não tem casa, quanto ganha e porque a conta não fecha.
1. O ponto de partida
Portugal tem casas a mais e habitação a menos. Tem gente a dormir em carros à porta das fábricas onde trabalha, quartos partilhados por dez pessoas a preços de apartamento, enfermeiros que recusam colocações porque não há onde viver, jovens que emigram com o curso na mão porque a renda come o salário inteiro. E tem, ao mesmo tempo, centenas de milhares de hectares de solo público sem uso.
A resposta convencional, construir mais, está certa e é lenta. Uma casa nova em Portugal demora entre três e sete anos desde a decisão até à chave, e custa o que custa. Enquanto essa máquina acelera, e tem de acelerar, há uma geração a viver em condições que não aceitaríamos para os nossos filhos.
Este plano não substitui a construção. É a ponte, e é uma emergência. Quando um incêndio ou uma cheia deixa mil famílias sem casa, o Estado aloja-as em semanas, com regimes excepcionais, sem esperar por pareceres. Há hoje centenas de milhares de pessoas sem casa digna por uma catástrofe mais lenta, e a resposta tem de ter a mesma urgência. Propõe que o Estado faça o que só o Estado pode fazer, disponibilizar solo e infra-estrutura, e deixe às pessoas o que as pessoas fazem melhor do que o Estado: escolher, comprar e cuidar da sua própria casa, por pequena que seja.
Um biótopo não é definido pelas caixas que lá estão. É definido pelas condições que permitem a vida. Uma aldeia biotópica é um lugar desenhado a partir da água, do solo, da energia e das pessoas, e só depois das casas.
Porquê biotópica
Biótopo vem do grego, bios e topos, lugar de vida. Em ecologia é o conjunto das condições físicas de um sítio, o solo, a água, a luz, o clima, o relevo, que permite a uma comunidade de seres vivos existir ali e não noutro lado. Um loteamento é o contrário: trata o terreno como uma superfície a ocupar e coloca-lhe em cima o que couber.
Chamar biotópica a uma aldeia é inverter essa ordem. Primeiro pergunta-se o que o lugar já tem e já faz: por onde corre a água, onde bate o sol, o que cresce, de onde vem o vento. Depois desenha-se a infra-estrutura para aproveitar isso em vez de o anular: a chuva recolhe-se, as águas usadas voltam limpas ao solo, a sombra é das árvores antes de ser dos toldos, a energia produz-se e partilha-se. Só no fim se pousam as casas, ligeiras, onde o lugar as aceita, e prontas a sair sem deixar marca.
As pessoas fazem parte do biótopo, não são visitantes dele. Cuidam da horta, da compostagem, do núcleo partilhado e umas das outras, porque um lugar de vida com gente que só dorme não é uma aldeia, é um parque. É esta a diferença entre alojar pessoas e criar um lugar onde se pode viver.
2. Quem são estas pessoas
Os números que se seguem são públicos e recentes. Servem para fixar a escala e para desmontar a ideia de que o problema é de uma minoria.
Quanto ganham
No segundo trimestre de 2026, segundo a Randstad Research sobre o Inquérito ao Emprego do INE, a faixa mais numerosa dos trabalhadores por conta de outrem, 34,1% ou 1,56 milhões de pessoas, ganhava entre 900 e 1 200 euros líquidos por mês. Em 2024 o salário mediano líquido foi de 980 euros: metade dos trabalhadores ganhava menos do que isso. Juntando as duas fontes, é razoável estimar que cerca de dois terços dos assalariados, na ordem dos três milhões de pessoas, ganham menos de 1 200 euros líquidos. Entre os mais jovens é pior: metade dos trabalhadores com menos de 25 anos ganhava, em 2024, o equivalente ao salário mínimo. O salário mínimo em 2026 é de 920 euros brutos, cerca de 819 líquidos.
Quanto precisam para o essencial
Para uma pessoa só, com preços de 2026, o essencial sem habitação anda por aqui:
| Despesa | Por mês, uma pessoa | Referência |
|---|---|---|
| Alimentação | 300 a 450 euros | 10 euros por dia só fecha a cozinhar tudo em casa; com almoço fora três vezes por semana passa dos 400. Cabaz essencial DECO PROteste a 255 euros em Setembro de 2026, 36% acima de 2022 |
| Transportes | 40 a 150 euros | Passe metropolitano cerca de 40 euros; carro próprio para ir trabalhar 120 a 150 euros |
| Telecomunicações | 20 a 35 euros | Telemóvel com dados e internet em casa; tarifa social quando aplicável |
| Medicamentos e saúde corrente | 20 a 50 euros | Comparticipações, consultas, taxas; mais para doentes crónicos |
| Total do essencial, sem casa | 400 a 700 euros |
Quem ganha 1 000 euros líquidos e gasta 500 no essencial fica com 500 para tudo o resto, e o resto começa pela casa. Um quarto numa área metropolitana custa hoje entre 400 e 600 euros; um T1, raramente menos de 900. A conta não fecha, e não fecha para dois terços de quem trabalha. Não é um problema de gestão doméstica. É aritmética.
E quando há filhos
Segundo os Censos 2021, dos 3,1 milhões de núcleos familiares, 45,3% são casais com filhos, cerca de 1,4 milhões, e 18,5% são famílias monoparentais, cerca de 580 mil, em 86% dos casos uma mãe com filhos. A maioria dos casais com filhos tem um só; cerca de um terço tem dois. Não há uma estatística que cruze directamente o escalão salarial com a composição do agregado, mas a proporção é estimável: os adultos que vivem em casal com filhos são perto de um terço dos trabalhadores por conta de outrem. Aplicada aos cerca de três milhões que ganham menos de 1 200 euros líquidos, dá na ordem de um milhão de trabalhadores casados ou em união com um ou dois filhos, a que se somam 300 a 400 mil pais e mães sozinhos, que estão desproporcionadamente nos salários mais baixos.
Um filho custa. Mesmo com escola pública, manuais gratuitos, passe gratuito até aos 23 anos e creche gratuita quando há vaga, o essencial de um filho em idade escolar não desce dos 300 euros por mês. As famílias com crianças gastam, em média, mais 811 euros por mês do que as famílias sem filhos, segundo o inquérito às despesas do INE.
| Despesa por filho, escola pública | Por mês | Nota |
|---|---|---|
| Refeições escolares, material, actividades | 60 a 120 euros | Escalões da acção social escolar reduzem para famílias de menores rendimentos |
| ATL, prolongamento de horário ou ama | 0 a 200 euros | Inevitável quando os dois pais trabalham a tempo inteiro e não há avós perto |
| Creche, dos 0 aos 3 anos | 0 a 500 euros | Creche Feliz gratuita se houver vaga; privada 280 a 700 euros consoante a zona |
| Alimentação, vestuário, saúde do filho | 200 a 300 euros | |
| Total por filho | 300 a 500 euros | Um filho no secundário ou no superior deslocado custa mais |
Façamos a conta a um casal em que os dois trabalham e ganham 1 000 euros líquidos cada, ou seja, 2 000 euros, acima da mediana. Essencial dos dois adultos, 900 a 1 200 euros. Um filho, mais 300 a 500. Dois filhos, mais 600 a 900. Sobram, na melhor das hipóteses, 500 a 800 euros para a casa; na pior, nada. Um T2 numa área metropolitana custa 1 100 a 1 400 euros. Esta é a família mediana portuguesa, com dois salários e dois filhos, e não tem onde viver. Por isso é que os filhos não nascem.
As mães sozinhas
As 580 mil famílias monoparentais são o caso em que a aritmética é mais violenta, porque há um salário para todas as contas e ninguém com quem dividir a creche, o ATL ou a doença do filho. Em 86% dos casos é uma mãe, e as mulheres ganham em média 14% menos do que os homens. Uma mãe com um filho, a ganhar 1 000 euros líquidos, gasta 400 a 500 no seu essencial e 300 a 500 no do filho. Sobram, se sobrarem, 100 a 300 euros para a casa. Não há quarto, não há T1, não há nada a esse preço numa cidade com emprego. É por isso que as famílias monoparentais têm, ano após ano, a taxa de risco de pobreza mais alta de todos os tipos de família, na ordem de um terço, mesmo com a mãe a trabalhar. Para estas famílias a fracção a custo não é uma poupança, é a diferença entre criar o filho e entregá-lo à casa dos avós ou à instituição.
Os reformados
Em 2025 havia 2,17 milhões de pensionistas de velhice na Segurança Social, um máximo histórico, e 1,6 milhões deles, três em cada quatro, recebiam menos de 870 euros por mês, o salário mínimo desse ano. Em 2024, metade dos pensionistas do regime geral recebia menos de 462 euros. A pensão social de velhice, para quem não descontou o suficiente, é de 262 euros em 2026.
Muitos destes reformados vivem em casas arrendadas com contratos antigos, de renda baixa, e são a última geração a viver nelas. A cada ano que passa, mais contratos chegam ao fim do regime de protecção, mais prédios são vendidos para reabilitação ou turismo, e mais senhorios descobrem que uma pessoa de 75 anos com uma pensão de 450 euros não tem para onde ir nem capacidade para se defender. Não é ilegal; é o mercado a fazer o que o mercado faz quando o Estado não está no terreno. O resultado é a pessoa de 75 anos num quarto alugado, em casa de um filho que também não tem espaço, ou num lar que custa três vezes a pensão.
Para um reformado com 450 euros de pensão, o essencial é comer, aquecer-se, os medicamentos e um transporte para o centro de saúde: 300 a 400 euros. Uma aldeia biotópica, com renda de fracção de 45 a 70 euros, posto de saúde a cem metros, núcleo partilhado onde alguém repara que não apareceu ao pequeno-almoço, e vizinhos de todas as idades, é para esta pessoa uma alternativa mais digna, mais barata e mais segura do que qualquer das que hoje tem. E é também o que o programa precisa para não ser uma aldeia só de jovens ou só de pobres: os reformados são a memória, o tempo disponível e a horta.
O que muda com uma fracção a custo
Numa aldeia biotópica, a renda da fracção é indexada ao rendimento, com tecto. Para quem ganha 1 000 euros líquidos, 10 a 15% do rendimento são 100 a 150 euros. A mesma pessoa, com o mesmo salário, passa de zero, ou de dívida, no fim do mês para 300 ou 400 euros livres. É essa diferença que transforma um trabalhador que sobrevive num cidadão que poupa, que estuda, que tem filhos ou que simplesmente dorme descansado. E é essa diferença que a construção convencional, a 900 euros o T1, não vai oferecer a esta geração a tempo.
